Tomando meu café ontem de manhã, antes de vir para a empresa, ouço a interessante notícia no telejornal matutino: Concurso para Gari em São Paulo bate recorde de pessoas (antes de encerrar as inscrições). Dos 110.000 inscritos, cerca de 1000 possuem curso superior, entre estes, segundo o telejornal, alguns mestres e- pasmem- doutores!
Imagina o sujeito fazer mestrado ou doutorado e acabar na fila se inscrevendo para ser Gari. Nada contra a profissão de gari, que é digna e bastante necessária à conservação da limpeza de nosso ambiente urbano. Mas no Brasil, esta, como diversas outras profissões menos “elitizadas”, geralmente pagam salários quase miseráveis. E de verdade, quem faz um curso superior não espera colar grau e varrer as ruas, por mais digno que isto possa ser.
Mas enfim, o que acontece? Como é que um indivíduo com curso superior, um mestre, ou até um doutor, vê-se numa situação destas? Falta de oportunidades? Desemprego estrutural? Crise mundial? Nacional? Em parte sim, concordo.
É certo que o Brasil está longe do pleno emprego e a coisa não anda fácil, mas há também um fator histórico muito importante influenciando esta realidade que vivemos hoje em São Paulo com relação aos que possuem 3º grau: O abismo gigantesco entre a formação acadêmica e a preparação mercadológica; a falta completa do desenvolvimento de atitudes empreendedoras nos que se graduaram em nossas universidades; seja no presente, seja no passado.
Na minha área de formação mesmo, psicologia, é possível ver um indivíduo fazendo uma complexa tese sobre, digamos, “A subjetividade do excluído social na América Latina pós-moderna”, mas o mesmo indivíduo “não faz idéia” de como transformar o conhecimento que tem em algo rentável; não consegue nem mesmo montar uma ONG que seja, para ajudar o coitado do excluído que analisou em seu trabalho.
A pessoa quer fazer ciência, o que é louvável, mas esquece que tem que comer e pagar as contas. Não sabe fazer um currículo, não sabe fazer a gestão de uma carteira de clientes; não sabe participar de uma entrevista de trabalho (ou sequer se vestir para uma); não sabe fazer marketing de si mesmo; não sabe organizar uma planilha de custos; não sabe ganhar mercado; não sabe desenvolver um negócio; resumindo, não sabe sobreviver profissionalmente.
Ora, as ciências que nos são ensinadas nas Universidades nos são apresentadas como possíveis profissões, das quais supostamente vamos tirar nosso sustento, sobrevivência e prosperidade financeira. Sob este aspecto o pragmatismo é absolutamente necessário, e a transformação do conhecimento em algo que possa ser realmente “vendido” é imprescindível. Isto não é desvirtuar o nobre caráter da ciência, e sim utilizar seu curso superior como uma “profissão” que o permita viver bem. Você pode até achar triste, mas é o capitalismo, e você precisa comer!
Como já disse em um artigo anterior, estamos formando por aí “odontólogos que sabem muito bem obturar ou mesmo implantar um dente, químicos que entendem profundamente suas fórmulas; advogados que conhecem muito bem as leis que estudaram; psicólogos que compreendem as complexas teorias do comportamento, e engenheiros que fazem seus cálculos com extrema exatidão; mas, em grande parte, pessoas que não fazem a mínima idéia de como oferecer seus serviços ao mercado, nem mesmo conseguem transformar o conhecimento que possuem em algo que traga algum retorno efetivo, tanto profissional como pessoal.”
Não pretendo com estas afirmações questionar a inteligência dos possíveis doutores garis que se inscreveram. Não sei da realidade e das dificuldades de cada um. Na verdade os considero, sob muitos aspectos, vítimas de um quadro social extremamente desequilibrado e, mais ainda, de um sistema educacional passivo e fraco do ponto de vista do desenvolvimento empreendedor.
Porque empreender não é ser empresário, não é ter o próprio negócio. Aliás, é também, mas vai muito além. Empreender na vida é ser capaz de enxergar um objetivo, identificar as competências necessárias para atingi-lo e partir para a ação. É ser capaz de buscar informação, que hoje é barata e acessível, para completar o quadro de competências mais desejadas pelo mercado. É, especialmente, ser capaz de olhar o mundo com olhos analíticos e se adaptar criativamente a ele.
Algumas raras pessoas têm o dom natural de fazer isto, mesmo sem estudo ou estímulo algum; chegam num lugar com uma mão na frente e outra atrás e, alguns anos depois, são bem sucedidos em suas empreitadas; mas a grande maioria de nós mortais depende da educação para desenvolver estas características. Uma educação que não existe; que não nos prepara.
É preciso ser inteligente sim, para passar em um concurso, mas o Estado não vai empregar todo mundo, e quem não for muito bem preparado, intelectualmente e COMPORTAMENTALMENTE, não entra na competição aqui fora. O curso superior não vale quase nada se você não souber tirar proveito dele.
Sem dúvida o sistema educacional de nosso país é totalmente ineficaz em nos preparar para sobreviver no cerne do capitalismo que dita as regras do mundo atual; e de verdade, se você quiser conseguir um lugar ao sol terá que, por si mesmo, usando sua curiosidade e persistência, descobrir os meios de transformar as informações que tem em algo pelo qual alguém queira pagar.
Não acredita num mero psicólogo? Vai lá então e pergunte a um daqueles doutores.
Até!


