Algumas pessoas e experiências que temos na vida costumam nos marcar de forma tão intensa que modificam todos os nossos padrões de comportamento daí em diante. No momento atual de minha vida, em que ”resgato” algumas coisas após passar por um período enorme de stress, me lembrei de um texto que escrevi em 2005, pouco depois de me graduar.
Ao reler fiquei surpreso ao perceber o quanto a lição é ainda atual para mim, e acredito que pode também servir de inspiração para você leitor. Embora não seja inédito, é a primeira vez que o publico no blog, e por ser um dos meus primeiros textos como “pretenso escritor”, tenho muito carinho por ele.
Espero que gostem!
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__ Não se desculpe! Disse-me em voz alta o professor. Deu-me nas veias querer joga-lo porta afora. Dera-me um trabalho gigante, em inglês, que eu falava bem, mas nem tão bem assim, fizera-me ficar debruçado naqueles mosaicos intermináveis de números e gráficos, e quando chego eu, com desespero e angústia, queixando-me de mil dificuldades e tentando em nome de qualquer coisa explicar ao homem que estava muito difícil, o que ouço?
Não se desculpe!
Mal educado! Pois não só não me desculpei como emburrei. Mas fazer o que? Era monografia e eu já estava pelo meio da coisa; já o ano letivo andava pelo fim. Emburrado que estava, guardei no estômago meia dúzia de pragas que iria dizer e voltei pra casa naquela indigestão.
Disse Bill Gates (conhecem?), “O mundo espera que você faça algo por ele antes mesmo de se sentir bem consigo”.
Profeta? Filósofo? Não. Multimilionário e filantropo! Fui-me embora com Bill Gates na cabeça e as pragas no estômago.
Chegando em casa a realidade. Tinha que fazer o bendito trabalho de qualquer jeito, e toda vez que vinha a revolta à cabeça ou achava algum empecilho eu me lembrava: Não se desculpe!!!
Ficava mais revoltado.
Fui fazendo, fui xingando; um copo de suco aqui, uma dor no pescoço ali. Não se desculpe! E mão na massa. Estava difícil demais. Não se desculpe!
A dizer a verdade, fiz o trabalho todo daquele dia ouvindo esta pérola de frase, dita numa tremenda falta de educação, de consideração e de respeito aos meus limites como simples aluno. Fui xingando, fui fazendo, fui terminando. Acabado o troço, voltei lá. Para minha surpresa eu já havia, (não sei como até hoje!), resolvido grande parte dos pepinos que até três horas antes julgava impossíveis de serem resolvidos.
Já viram alguma pesquisa em Análise Experimental do Comportamento, que lida com inúmeros sujeitos, múltiplos esquemas de resposta, e se encontra escrita no mais belo e simples inglês acadêmico? No início é a mesma sensação de se assistir ao pregão da bolsa de valores aos oito anos de idade. Não se desculpe!!!
Enfim, mall ou bem, tinha eu feito a coisa e ali estava de novo esperando uma nova grosseria. Pois mostrei ao homem e esperei.
__Perfeito, está excelente! Eis o que ouvi.
Pensei comigo: É doido! Mas fazer o que? Era um “perfeito” que eu acabara de ganhar apenas três horas depois de receber um: Não se desculpe!
Pois sim, entregue a coisa, pus eu o perfeito no bolso, dei meia volta e saí andando. Antes de ir embora tomei o rumo da cantina da faculdade, comprei um suco de acerola e me coloquei a observar o sol que se punha. O “Não se desculpe” no estômago, misturado agora ao suco de acerola, e o “perfeito no bolso”. Na cabeça e no peito, uma sensação esquisita…
Até hoje me lembro que cinco dias depois tive de defender meu projeto na banca. E lá estava ele, o “Sr. Não se desculpe”. Para minha surpresa, naquele dia ganhei vários perfeitos, inclusive dos outros dois da banca (talvez tivessem combinado). Tirei dez!
Saí dali embriagado. Havia feito um trabalho extremamente complexo e rico, numa língua estrangeira que dominava apenas parcialmente, sem a mínima experiência em qualquer projeto de pesquisa, e tirado nota máxima!
Professor João Carlos, o nome dele. O homem que num gesto ríspido inflamou minha revolta, empurrou-me para o impossível, condenou-me sem piedade ao irrealizável e ajudou a forjar o meu caráter!
Curioso é que levei alguns meses para entender a estranheza em meu peito aquele dia na cantina. O misto de angústia e insegurança e ao mesmo tempo o prazer que eu experimentara no dia do “Não se desculpe” que em pouco tempo virou um “Perfeito”.
Se fizera isso propositalmente não sei. Nem nunca perguntei, mas acho que sim; deu –me um talho na alma a fim de moldar a atitude que queria em mim. Desde então em muitas coisas eu cresci. Aprendi num susto, aquele dia, que eu era capaz de realizar infinitamente mais do que sequer poderia conceber, e num período de tempo muito mais curto do que sequer imaginara.
Pois é, lembro-me sempre do professor João Carlos, com seu jeito exigente de encher a cabeça da gente com muito mais caraminholas do que podemos (ou pensamos que podemos) agüentar. E o engraçado é que hoje em dia o que me dá mais prazer recordar não são os bons momentos ou as vezes em que recebi generosamente alguns louvores. Gosto mesmo é de lembrar daquela tarde enervante e quente em que eu chegara desesperado por um encosto qualquer e ouvira a curta sentença que até hoje me acompanha e me faz crescer na vida:
“Não se desculpe!”