02/09/2010

Depuração Inovadora por Idade

Publicado em 20. jan, 2010 por Paulo Botelho em Recursos Humanos

Ele me mostrou – com tristeza nos olhos – um e-mail de rescisão de contrato de trabalho, contendo quatro parágrafos com cinco erros de sintaxe gramatical. Aos 63 anos, o colega de magistério está sentindo na própria pele – e no bolso – a dimensão desse preconceito que tem afetado a vida das pessoas com mais idade. Doutor em Administração pelo MIT – Massachusetts Institute of Technology – USA – com efetiva e bem-sucedida passagem por empresas de grande porte, foi avisado, através do tal e-mail, que não poderá voltar a lecionar na Universidade neste ano. Registre-se que nenhuma universidade brasileira está presente no ranking das 100 melhores do planeta. O MIT é a segunda do ranking. O comentário “à boca pequena” na Sala dos Professores é que a coordenação pretendeu fazer uma “depuração inovadora por faixa de idade”. – E pensar que Oscar Niemeyer continua com bastante serviço aos 102 anos de idade. Ele caminha bem devagarinho como que perdoando o tempo que se perde com imbecilidades como essa, entre outras tantas que grassam nesse país atrofiado.

Um professor com a formação desse meu colega não pode ser tratado como um material obsoleto. E uma instituição de ensino assim não tem futuro. Não vai sobreviver. Tomara que não!

Oscar Niemeyer, desde o início de sua extensa carreira, quando se desvinculou da tutela de seu mestre Le Corbusier, elegeu a curva como ponto central de seu trabalho, incluindo-a em todos os seus projetos. Comunista por devoção, assim como Portinari, nunca se tornou um ativista político, situando sua crença no terreno da mais pura retórica. Na Catedral de Brasília Niemeyer evitou as soluções usuais das catedrais escuras que lembram a dor, a culpa, o pecado.

Mas, ao contrário, ele fez escura a galeria de acesso à nave, toda colorida, iluminada, voltada com seus belos vitrais transparentes para os espaços infinitos. São dezesseis colunas curvas, idênticas e organizadas em círculo. Elas se elevam para se encontrar como que num gesto de súplica. Eis aí o saber, a criatividade, o conhecimento aplicado em sua essência! Quando ele projetou a catedral, em 1972, já tinha 65 anos, isto é, em rota perigosa de “depuração inovadora por faixa de idade”, principalmente se levarmos em conta que o presidente da República não era o Juscelino Kubitschek, mas um ditador, ocupante da presidencia da República, que atendia pelo nome de general Emílio Garrastazu Médici.

Niemeyer nos ensina a sonhar, mesmo com os pesadelos dessa desumana arquitetura: a desnutrição, a fome, a ignorância, o desemprego, os preconceitos, a violência e a desesperança!


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13 Respostas to “Depuração Inovadora por Idade”

  1. Ronaldo Costa 22 janeiro 2010 at 7:40 #

    Já pensou em escrever um romance?
    Seu artigo “O Gestor Globalizado” me capturou como leitor, mas esse…
    Tem algo de sublime na maneira como descreveu, em tão poucas palavras, a frustração de uma vida bem sucedida desvalorizada pela arrogância da juventude inapta.
    Eu, aos 41 anos, já busco combater essa “depuração inovadora por faixa de idade”, temendo ser uma futura vítima… O peso dos anos não é um lastro, mas um tesouro de experiência. Parabéns!!!

  2. Ricardo Klink Postali 22 janeiro 2010 at 7:43 #

    É surpreendente e vergonhosa a forma que as empresa, nos mais diversos segmentos da economia, dispensam pessoas talentosas, motivadas e comprometidas. Meus amigos tenham certeza que quem está perdendo são os empregadores e não os empregados. Forte abraço e avanço sempre!

  3. Paulo Botelho 22 janeiro 2010 at 9:36 #

    Caro Ronaldo,

    “Lutar com as palavras é a luta mais vã, no entanto, lutamos, mal rompe a manhã”, já dizia o poeta Drummond. Não, meu caro Ronaldo, não penso em escrever um romance. Por duas razões: Primeira, já não tenho mais tempo. Estou descendo, devagarinho, a escada do tempo; segunda, não sou capaz de escrever esse romance. Mas, você sim: escreve corretamente; é ainda jovem e tem muita sensibilidade interpretativa. Qualidade em falta por aí!

    Um abraço do

    Paulo Botelho

  4. Paulo Botelho 22 janeiro 2010 at 9:38 #

    Caro Ricardo,

    Comentário oportuno e de perfeita análise. Eu não poderia comentar melhor!

    Com um abraço do

    Paulo Botelho

  5. Leonardo 22 janeiro 2010 at 13:24 #

    Caro Prof Paulo Botelho,

    Por sorte recebi este artigo do seu blog. Seria “antiético” dizer o nome desta faculdade, mas penso que foi sorte deste companheiro ter se afastado desta. Pois, uma faculdade que não valoriza um Doutor e com tamanha experiência, das duas uma, ou a faculdade tem “Professores mais qualificados”, ou o que venho notando, as faculdades(brasileiras) não querem formar profissionais pesquisadores e cientistas que desenvolvem soluções. Estão formando um bando de “sei lá o que”, pois, as empresas não precisam de pensadores e sim de executores. Note que está em falta grandes pensadores que lutam por um mundo melhor onde o maior foco seria a sabedoria. Estão desprezando a experiência e a sabedoria.

    Desculpe os erros de português e se o comentário não for bom.

    Leonardo.

  6. Francisco Nonato 22 janeiro 2010 at 21:23 #

    É por essa e por outras iguais que este não é um país sério. Não há respeito por nada, enquanto a mediocridade reina e a cegueira parece tomar conta de todos. Com 68 anos,sadio e em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais, tenho sofro de tais discrimações constantemente. Fazer o quê?

  7. Paulo Botelho 24 janeiro 2010 at 9:31 #

    Não valoriza aqui, nessa Botocúndia, meu caro Leonardo. Tente falar e/ou interagir com um professor-doutor da Unicamp, Usp, Uerj, Puc, Unifesp, etc. Vai ficar decepcionado com o tamanho do nariz empinado deles. Há exceções, é claro. Poucas. Seu comentário é inteligente e pertinente. E não contém erros gramaticais.

    Com um abraço do

    Paulo Botelho

  8. Paulo Botelho 24 janeiro 2010 at 9:34 #

    Não desanime, meu “velho” Nonato. O meu colega do MIT, posto para fora daquela universidade, está indo, de mala-e-cuia para o Canadá. Vai lecionar, com um contrato de 4 anos, na Universidade de Toronto. Gostou?

    Um abraço fraterno do

    Paulo Botelho

  9. Sílvio Mota Lima 4 fevereiro 2010 at 10:52 #

    Parabéns pela abordagem de um tópico tão presente na vida dos que ultrapassaram a esquina dos 50 anos.
    Estranhei a espressão “bestalhão” ao referir-se a um ex-presidente da República.Deveria o termo ser entendido no sentido “latu” ou tem viés ideológico por trás do mesmo?

  10. GIOVANNI SANDOR 4 fevereiro 2010 at 11:49 #

    OLÁ PROFº PAULO!
    PARABENS PELA MATÉRIA!
    E QTO A ESCADA,NÃO SE DESCE A ESCADA DA VIDA…POIS É VIDA E PARA O ALTO!
    LI UM MATERIA ONDE O JAPONESES QUEREM DE VOLTA OS PATRIARCAS COM MAIS DE 70 ANOS POIS OS MESMOS IRÃO DE VOLTA AO PAÍS DE ORIGEM ,E SERÃO CONTRATADOS PRA TRABALHAR. POIS ALEM DAS PERDAS EM RELAÇÃO A”IDADE” PERDEU-SE MUITO EM RELAÇÃO AS SUAS CULTURAS E ENSINO..
    ELES VÃO TRABALHAR EM INSTITUIÇÕES DE ENSINO ..
    TEMOS MUITO A APRENDER!
    GIOVANNI SANDOR SP

  11. Paulo Botelho 7 fevereiro 2010 at 10:29 #

    Caro Silvio Mota Lima,

    Peço desculpas pelo termo “bestalhão”, o mais suave que encontrei para me referir ao general Garrastazu Médici, um dos ocupantes da presidência da República durante a ditadura militar: uma delinquência constitucional violenta, pusilânime e obscurantista do período 1964-1985.

    Com um abraço democrático do

    Paulo Botelho

  12. Paulo Botelho 7 fevereiro 2010 at 10:32 #

    Caro Giovanni,

    Eu não sabia disso. Muito animador. Você acha que esse procedimento seria possível por aqui?

  13. Sílvio Mota Lima 31 agosto 2010 at 23:52 #

    AH! Entendi.
    Que bom que agora vai mudar, né?
    Vai ficar como alguns queriam que tivesse ficado em 64, se os verdadeiros traidores da pátria tivessem vencido.
    Havia muitos inocentes, como há, hoje, que pensavam defender a democracia, e a defendiam, de verdade, do fundo de suas almas.Outros, porém, os usavam como bucha, para alcançar seus verdadeiros objetivos: a enorme CUBA.Está em todos os registros históricos, que a mídia, vendida, não ousa tocar.
    Não elogio o período nem o acontecimento histórico, pois não sou favorável a nenhum tipo de governo autoritário, nem militar, nem muito menos civil, mas, naquele momento, era o que qualquer patriota com um mínimo de entendimento da situação faria.
    A contra-revolução foi um mal necessário.
    Espero nunca mais ser necessária uma ação como essa em nossa amada pátria BRASIL.


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