Ditadura do Consumidor
O Dia em que o leite acabou
A cena bizarra lembra aquela de Um Dia de Fúria em que William Foster, personagem interpretado por Michael Douglas, indignado por causa de um problema
pessoal, destrói um restaurante do McDonalds porque o cardápio havia mudando de horário, do café para o almoço. Diferença de cinco minutos. O gerente se dispôs a explicar e até servir o café para satisfazer o cliente, mas levou a pior, uma vez que o consumidor estava a fim de causar dano ao estabelecimento e barbarizar as pessoas.
Presenciei cena idêntica em um Hipermercado famoso pertencente a uma grande rede de varejo. Visando atrair e servir seus clientes das redondezas, a loja anunciou uma grande promoção de Leite Longa Vida abaixo de um real e cinqüenta centavos a caixinha de um litro. Embora fosse de uma marca alternativa, o preço chamou a atenção e atraiu como um imã centenas de consumidores de diversas regiões da cidade e de localidades bem distantes da sua área de abrangência.
Os consumidores não estavam armados de metralhadora, como William, mas barbarizaram com ameaças e gritarias.
Incrível que não estavam ali pressionando em grupo (mais de cem pessoas) uma frágil atendente (nesses casos o gerente sempre some) por causa de cem ou duzentos reais de diferença na promoção de uma TV de Plasma ou LCD. Estavam brigando por centavos de diferença num litro de leite, cujo consumo é inelástico ou seja, o consumo não aumenta em função de uma baixa repentina de preço. Quem leva mais do que uma caixa está comprando para fazer estoque em casa.

Promoções como essa são faca de dois legumes, como dizia Vicente Matheus, legendário presidente do Corinthians. Acaba atraindo pequenos comerciantes de bares e restaurantes que compram vários carrinhos lotados e abastecendo-se diversas vezes durante o dia com funcionários diferentes. Montadas com o objetivo de servir seus consumidores, o supermercado termina por desservir e ainda causar desconforto aos clientes.
Pelo tumulto que causou, – deu até BO na polícia do bairro – parecia que não haveria mais leite no planeta e todo mundo queria se abastecer para o resto da vida, já que o Leite era “Longa Vida.” Indiscutível os direitos do consumidor, estabelecidos na Lei 8.078/90 que criou o Código de Defesa do Consumidor há quase 20 anos, um dos melhores instrumentos jurídicos do mundo nessa área e que colocou ordem nas relações de consumo em nosso País.
O que s
e discute e se pondera aqui é o comportamento das pessoas. Discutem-se os vícios culturais nossos de ainda querer levar vantagem em tudo, bem além dos nossos direitos. Sempre que alguém exorbita, aproveita-se de determinada situação, além de colocar seus direitos em risco, cria precedentes para que o outro lado – no caso o varejo – comece a fazer a mesma coisa, trapaceando, ou no mínimo, criando salvaguardas para se proteger. É um jogo Perde-Perde.
Se cada cliente tivesse levado duas ou três caixas, equivalente ao consumo de um mês, haveria leite para todos e a promoção teria atingido seu objetivo.
Mas imperou a cultura do Sabe com Quem Está Falando(?) e o velho hábito de se levar vantagem em tudo.
Tags: cliente, consumidores, Consumo, Gerente, Preço, Promoção, Varejo


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